quarta-feira, abril 22, 2026

E a ressaca moral continua sendo a pior

Parece que é proibido sentir dor. Não dor física. Aquela dor da alma, do pensamento. E parece que pra esta dor ser compreendida é preciso que estejamos passando por algo muito ruim, algo como a perda de um parente íntimo, falta de emprego ou emprego ruim, não sei. Parece que precisamos ter respostas e motivos pra tudo que sentimos. Não basta sentir. E aquela dor que vem não sei de onde e que parece não ter por que? Você a sente mas todos dizem que ela é impropria, que é proibida. O que fazer nesta hora? Quando nem a pessoa que está se tornando a mais importante na sua vida entende a sua dor?
É duro sentir sem poder, sem saber. É duro não conseguir remediar o que parece não ter remédio. Ser feliz é a melhor coisa do mundo. É um sentimento de luz, que contagia quem está ao redor. Todo mundo quer ser feliz. Mas aqueles que querem apenas se manterem felizes não são compreendidos. E parece ser impossível ter opinião e ser feliz. Minha mãe me disse que eu não vou poder mudar o mundo. E isso é desanimador. Porque sempre acreditei que com atitudes e força de vontade de cada um era possível mudar as coisas. Entendia a dor da tentativa, mas ainda sim, acreditava que mudaria as coisas, mesmo sofrendo. Olhei um aplicativo do face e enfim entendi o que eu tenho feito. Tenho me anulado. E nem sei há quanto tempo tenho feito isso. Tenho me dedicado tanto a outras causas que não eu mesmo. Quando deito em minha cama, o último pensamento que tenho é sobre mim. Sentia que resolvendo os problemas das outras pessoas e estando presente na  vida de quem eu achava que precisava de mim, eu estaria bem. Mas eu estava impondo a minha presença e fazendo coisas por quem não havia pedido ajuda. Pensando demais, sofrendo de mais, por causas que nem era necessariamente as minhas. Até que ponto é possível pensar tanto em outras pessoas mas não esquecermos de nós mesmos? Qual é a medida do altruísmo? Isto é altruísmo? Acho que quando deixa de fazer bem pra si próprio não é mais um bom sentimento agindo. E a anulação afasta as pessoas. Não todas, mas aquelas que procuram o bem. Não quero deixar de ser eu mesma e talvez esteja deixando.

Como Drummond sentiu os sentimentos do mundo?

Então tem sido uma constante. As postagens estão sendo uma vez ao ano já que a última foi em 2025 e o texto num contexto meio doloroso. A ideia de voltar foi também romper essa sequência que vinha seguindo e como ainda não chegamos a junho (última postagem) darei então como rompida.
Uma pena que o contexto permanece. Não volto a escrever pra dizer que estou feliz. E me sinto um tanto ingrata nesse sentido pois pedi tanto pra ter o que tenho hoje, que o mínimo que deveria ocorrer era a felicidade diária. Mas algo me consome. Eu acordo grata por respirar e amanhecer mas algo não parece certo. A sensação tem sido angustiante. E a sensação já me vem faz algum tempo. Ao que parece aumentou desde o mês passado, mais especificamente na semana do meu aniversário. E mesmo quando eu tento estar disposta e busco me animar, algo acontece e eu meio que volto à estava zero. Segunda-feira chorei litros sentindo um tantão de coisa ao mesmo tempo. Um misto de sensação de abandono com abandonar, de encerramento de algo que nem sei. Não entendo mas sinto. E esse sentir é muito. Espero que a próxima ideia que me traga pra cá seja mais viva ou pelo menos esperançosa. Mas ainda mais que isso, espero que eu siga retornando. Quero que a escrita volte a ser rotina nos meus dias. Quero voltar a trazer em letras o que o meu coração vem dizendo. Espero que sim mas por enquanto, que bom que aqui estive. 

"Tantas vezes, tantas, como agora, 
me tem pesado sentir que sinto – sentir como angústia só por ser sentir, 
a inquietação de estar aqui, a saudade de outra coisa que se não conheceu, 
o poente de todas as emoções… Ah, quem me salvará de existir? 
Não é a morte que quero, 
nem a vida: 
é aquela outra coisa que brilha no fundo da ânsia…" 
[Fernando Pessoa]
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