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quarta-feira, maio 13, 2026

O cessar da vida

Como seria enxergar a morte sem que ela fosse tão fúnebre? Queria ter esse poder. Ao ser informada sobre o falecimento da avó do Tiago, após abraçá-lo para oferecer consolo e dessa forma já me consolar também (não sei lidar com mortes e nem com as notícias sobre) algumas coisas passaram pela minha cabeça. Primeiro, pensei na minha sogra. Putz, agora ela também não tem mais pai e nem mãe. Tristeza que se possível, não queria que ninguém passasse. Aí pensei na própria dona Olália. Tão tranquila, transmitia tanta paz. Parecia que com aquela paz teria alguns vários anos de vida mesmo tendo mais de 80 anos. Pensei na minha mãe também, que estava fazendo 8 anos de falecimento neste 11 de maio. Lembrei o quanto ainda me doía aqui e de sempre me perguntar se essa dor um dia vai passar. Que coisa maluca é a morte. Não tem data pra acontecer. Quando a minha mãe faleceu ninguém esperava que aquele fosse o dia. Ela já havia sentido dores. Já havia ficado internada anteriormente por pancreatite e não se foi. Porque aquele seria o dia? Detesto velórios e tento evitá-los sempre que consigo. Mas nesse não tinha como não ir. Mesmo sendo algo que me toma de uma forma muito intensa eu queria estar presente. Dona Olália sempre foi muito gentil e carinhosa comigo. Mandava aúdios fofíssimos de bom dia. Eu precisava estar lá. Por ela e também pela minha sogra. E pelo Tiago. Mas eu sabia que isso ficaria na minha mente depois e que eu teria que trabalhar isso depois. Não consegui dormir direito à noite, acabei perdendo o sono em algum momento (também por causa da alergia e porque estava com a minha tia e ela fazia barulho enquando comia amendoim na cama). Ao pesquisar morte no google, a IA trouxe uma definição até que interessante, segundo a wikipedia.

"A morte é definida cientificamente e culturalmente como a cessação definitiva das atividades biológicas e da vida. Representa o fim da existência material de um ser, sendo um processo irreversível, mas também pode simbolizar o encerramento de um ciclo, uma separação (física ou espiritual) e a finitude inevitável da vida."

Fim. É fim mesmo? E como lidar com esse fim, sem saber quando ele vai chegar? Eu acho que a morte vira uma chave na vida de quem perde. E essa virada de chave também varia de acordo com quem é esse ente que se foi. Mãe é um negócio inexplicável. Perder pai também é horrível, uma sensação de dor física sabe. E com a mãe, parece que é um rompimento de ciclo, um encerramento. Aquela pessoa que você era antes e a que você se torna depois que a mãe morre. É como se a partir dali não há mais quem te valide essencialmente enquanto pessoa. Agora é com você e só. Encerramento de ciclo. Mas como sabemos quando o nosso relógio vai dar esse toque e despertar para o fim? Podemos saber quando? Sentir quando?

"O próprio viver é morrer, 
porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, 
nisso, 
um dia a menos nela."
[Fernando Pessoa]

🍂💔

quinta-feira, maio 17, 2018

Obituando a mente.

Desde sexta-feita (11 de maio) que ao mesmo tempo em que me vi num filme de drama cult também não parei pra sentir a situação. Começo a achar que cada vez que repito que a minha mãe morreu é para o meu próprio convencimento. Ontem, ao acordar, lembrei de tudo o que tinha que fazer e pedi a tal força que todos têm me desejado desde o velório. Falei com Deus, deitei na cama da minha mãe e falei com ela também. Pedi um help para os dois. Aí saí para os afazeres cujo primeiro seria ir ao cartório de registro para registar a certidão de óbito da mamãe. Nem nos meus piores pesadelos eu me imaginei nessa situação, vivendo esse dia. Enquanto caminhava até o cartório fiquei pensando nos filmes de terror que já assisti. 'Todos fichinha', acabei até falando em voz alta (há tempos que os pensamentos saem em voz alta e eu já não me importo se tem alguém olhando). Ouso pensar que dificilmente nesta vida algum filme vai me fazer perder o sono de novo. Tomara que sim porque aí eu estarei perdendo o sono por uma fantasia e não por causa das realidades como tem sido ultimamente. Tá, divaguei. Voltando ao assunto, cheguei no cartório. Peguei a senha, sentei e na falta do que fazer comecei a pensar em várias coisas. Loucura a andança da vida. Sentados estavam casais que iriam casar, mamães com bebês que acabaram de nascer pra registrar e uma ou duas pessoas num mesmo momentinho que eu, tratando de morte. Tudo ali, no mesmo rolê. Minha senha foi chamada e enquanto a funcionária pegava documentos da minha mãe e registrava tudo pensei: 'Olha que coisa, minha mãe já teve certidão de nascimento, certidão de casamento e agora vai ter uma de óbito. Ela vai deixar de ser várias coisas e vai ser só um papel'. Pensei isso porque a funcionária me disse que depois de várias burocracias, na maior parte dos lugares, o único documento que vai interessar é a certidão de óbito dela. Quando obviamente estava começando a chorar (que no meu caso flui naturalmente) fui interrompida por perguntas pessoais da funcionária. Achei da hora porque parei de pensar e pude falar da minha mãe viva. Coisa boa. Até sorri. Uma tarefa finalizada. Uma burocracia a menos e um lugar a menos para ter que 'obituar' oficialmente a minha mãe.